2008, Odisseia Final
Escrito por José Matos   
11-Jul-2008

 

Arthur C. Clarke teve uma vida longa. Deixou-nos em Março com 90 anos de idade. Autor emblemático e teórico da órbita geoestacionária, onde hoje habitam uma boa parte dos satélites de comunicações, Clarke foi um idealista que falhou grande parte das suas profecias. O mundo imaginado do amanhã não passou de um sonho visionário. Não temos bases na Lua (mas temos uma estação espacial no espaço), não temos homens em Marte e nunca uma nave tripulada chegou a Júpiter, nem os extraterrestres comunicaram com a Terra. É certo que ainda sonhamos com 2001. Com o Danúbio Azul de Strauss. Com as paisagens lunares. Com a Discovery a caminho de Júpiter. Com HAL e a sua inteligência fria e calculista. Com Dave Bowman na sua busca pessoal. Mas não com o futuro optimista de Clarke.

 

O que fica de 2001 é a destruição apocalíptica do 11 de Setembro. Nada que a ficção de Clarke algum dia imaginasse. Mas Clarke juntamente com Asimov foram desses visionários do futuro optimista e radiante. Das máquinas ao serviço dos humanos, dos contactos extraterrestres, das colónias na Lua, das viagens no espaço, das naves movidas a propulsão nuclear, dos computadores inteligentes, dos carros voadores, das torres gigantes contra o céu azul. Uma era dourada que nunca aconteceu. Clarke viveu nesse mundo de quimera, de um futuro em potência, de uma civilização grandiosa. É certo que muitas das suas intuições estavam erradas, mas isso não lhe retira a aura de sonhador e de idealista. Foi também um divulgador incansável da ciência e do misterioso. Curiosamente, a marca televisiva que deixa é do mundo misterioso. Do crânio de cristal, que muitos de nós vimos nesse ano distante de 1983. Mas fica também essa obra visionária que é 2001 – Odisseia no Espaço. Mais por culpa de Kubrick, que tornou um conto de Clarke num filme de culto. O filme foi escrito por Clarke e Kubrick com base no conto de primeiro, A Sentinela. No filme, uma civilização extraterreste intervinha na evolução humana através de um monólito negro deixado na Terra nos primórdios da humanidade. O monólito aparecia mais tarde na Lua e quando iluminado pelo Sol enviava um sinal para Júpiter, ponto de contacto com os extraterrestres. Em 2001, uma missão tripulada secreta era enviada para Júpiter para descobrir o que se passava. Depois de várias peripécias, o único astronauta sobrevivente da missão encontrava um segundo monólito e ao entrar dentro dele regredia no tempo e tornava-se uma criança das estrelas. Ou seja, os extraterrestres controlavam o tempo. O filme de Kubrick gira em torno deste conceito, de uma civilização avançada capaz de mudar o curso das coisas, capaz de transformar um ser humano adulto numa criança. Pelo caminho há também HAL, um computador inteligente, que se revolta contra a própria tripulação da nave e que os mata para assegurar a sua própria sobrevivência. Quando o filme estreou em 1968, o século XXI era algo de longínquo e o progresso da astronáutica parecia prometer um futuro brilhante. A ideia de voos regulares para a Lua, em 2001 parecia viável. Mas tudo não passou de um sonho. O ano estava definitivamente errado. Depois dos anos gloriosos da Apollo, a exploração humana regrediu para a órbita terrestre e o sonho do regresso à Lua ficou adiado por muitas décadas. Talvez em 2018 ou 2019 estejamos de volta, embora seja cedo para dizer se será mesmo assim. Como Clarke disse uma vez, a conquista da Lua foi uma anomalia do século XX.

Mas além de ficção científica, Clarke foi também um arauto do mundo misterioso, dos fenómenos bizarros, de coisas na fronteira da ciência. Ele que dizia que uma tecnologia suficientemente avançada era indistinta da magia. E é essa imagem que guardo dele, pois foi na televisão que ele se popularizou. Numa série recheada de enigmas, coisas de que gostava de falar. No seu último aniversário disse que gostaria de ver provas de que os extraterrestres existem. Partiu sem saber se a vida existe noutros cantos da galáxia, embora lá no fundo pensasse que sim. Partiu numa época tecnológica, é verdade. Mas também no tempo do aquecimento global, dos grandes extremismos, do mundo unipolar. Mas também no tempo em que comunicamos em qualquer ponto da Terra, em que fazemos turismo no espaço, em que temos sondas nas profundezas do sistema solar, em que máquinas rolam por Marte, em que descobrimos novos planetas todos os meses, em que as promessas de outras Terras estão cada vez mais próximas, em que energia negra domina o Universo, em que partimos o átomo para descobrir os seus mistérios. Nada mau para quem começou com um osso e um monólito negro na alvorada dos tempos.

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