Para quem estava na Terra, os dois impactos passaram despercebidos, a não ser para os grandes observatórios profi ssionais que estiveram atentos ao acontecimento, bem como os astrónomos amadores. Mas o observador previlegiado foi a sonda LCROSS, que tentou captar imagens antes dela própria também bater. “Há indicações de uma ejeção de vapor e de fi nos fragmentos”, comentou na altura Anthony Colaprete, o director científico do projeto LCROSS. No entanto, disse não haver nenhuma indicação sobre a presença de água. Nada de espantar quando se está a falar de uma experiência científica no limite em que os dados devem ser analisados com muito cuidado e ponderação.
Mas não foi preciso esperar muito tempo para que o cientista do projecto LCROSS anunciasse novidades. Em Novembro eram conhecidos os primeiros resultados: “Múltiplas provas mostram que estava presente água tanto na pluma de vapor como na cortina de materiais ejectados pelo impacto. Ainda temos de fazer mais análises para estudar a concentração e distribuição da água e de outras substâncias, mas é seguro já dizer que a cratera Cabeus tem água”. A descoberta é o culminar de uma longa busca de água na Lua. Já há dez anos, uma sonda chamada Lunar Prospector tinha batido contra a Lua, mas sem grandes resultados. A ideia de que a Lua poderia ter água congelada nas regiões polares no fundo de crateras onde nunca bate o Sol remonta ao começo da exploração lunar nos anos 1960. Nessa altura, percebeu-se que certas crateras polares podiam ter temperaturas muito frias na ordem dos 200 graus negativos e que em teoria podiam ter água congelada trazida por cometas. A partir daí alguns começaram a imaginar que um dia seria possível extrair gelo da terra lunar e com isso abastecer uma base do precioso líquido. Ou então usar o hidrgénio da água como combustível para naves. É que levar água da Terra para a Lua fica caro, qualquer coisa como 20 mil euros por litro. Mais vale abastecer lá. Todos estes sonhos de água na Lua ganharam algum alento em 1994, quando a sonda Clementina da NASA detectou qualquer coisa no Pólo Sul com o seu radar que tanto podia ser gelo, como podiam ser irregularidades no terreno. O mistério adensava-se e para o resolver foi lançada no final dos anos 1990, a sonda Lunar Prospector, que detectou uma concentração anormal de hidrogénio nos pólos. Podia ser hidrogénio da água, mas também podia ser hidrogénio livre sem estar ligado a nenhuma molécula. Num derradeiro sacrifício para resolver o mistério, a pobre sonda foi espatifada contra a cratera Shoemaker, próxima do Pólo Sul, mas nenhuma nuvem de detritos foi detectada da Terra, muito menos água. Entretanto, mais recentemente, a sonda japonesa Kaguya fotografou a cratera Shackleton no Pólo Sul, suspeita de ter gelo, mas nada foi visto que provasse isso.
Perante este historial de decepções, a missão LCROSS era aguardada com alguma expectativa. Estamos a falar de uma missão concebida desde o início para impactar e para acompanhar o primeiro impacto. A sonda partiu da Terra em Junho passado a bordo de um foguetão Atlas V, junto com a sonda LRO (Lunar Reconaissance Orbiter), encarregada de elaborar uma carta detalhada do nosso satélite natural. Desta forma, a NASA lançou duas missões em simultâneo, uma para orbitar a Lua (LRO) e outra para bater na Lua (LCROSS). Juntamente com a LCROSS seguiu o estágio superior do Atlas V, um cilindro de duas toneladas que foi embater na Lua a nove mil km/h. Quatro minutos depois batia a sonda. Vários critérios tinham sido relevantes na escolha do sítio, a cratera Cabeus A. Era uma região rica em hidrogénio, como indicavam os dados mais antigos da Lunar Prospector, e era uma zona bem iluminada para que se pudesse ver a nuvem de detritos. Juntamente com os astrónomos profi ssionais, uma rede de astrónomos amadores foi montada a nível mundial para que nada se perdesse em termos de observação. Mas os resultados anunciados em Novembro vieram da própria sonda que observou o impacto.
Falta obviamente saber se a água detectada tem uma distribuição uniforme ou se está concentrada em certas zonas e se a sonda acertou numa dessas zonas. Mas independentemente disso, a descoberta tem o seu valor científi co e é um motivo forte para futuras missões que possam aterrar nas regiões polares e explorar mais a fundo o gelo presente no subsolo.