Associação Horizonte: Um milagre chamado Irene Mendes Imprimir e-mail
Escrito por Andreia Barros Ferreira   
08-Set-2008
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A determinação e a generosidade de uma mulher vai permitindo a sete pessoas com esquizofrenia ou doença bipolar terem uma casa onde se sentem mais apoiadas e onde podem recuperar alguma autonomia. A associação Horizonte existe desde 2001 sob a direcção bem-humorada de Irene Mendes, que recentemente foi nomeada para o prémio Mulher Activa. Percebe-se a justiça da distinção quando se entra no mundo agitado de Irene, que vai tecendo os seus dias entre o seu emprego e a direcção quotidiana da Horizonte.

 

 

 

 

 

 

"Fazemos trabalhos manuais: porta-chaves, flores para oferecer às senhoras, dançamos tango e temos saídas. Às vezes vamos a Belém, outras vezes ao Parque das Nações. Vamos sempre todos juntos". A voz calma e o cruzar de pernas constante mas relaxado de Francisco quase não deixam perceber que sofre de esquizofrenia grave. Francisco é um antigo professor e vive na residência da Associação Horizonte há sete anos. Impossibilitado de dar aulas por causa da sua doença, hoje escreve poesia e afirma que Fernando Pessoa e Camões são os seus poetas de eleição.

Francisco partilha a casa com mais seis pessoas, todas com doenças psicossociais em estado avançado (esquizofrenia ou doença bipolar), e quase todas a viverem lá desde o início da associação, tal como ele. Passam os dias envolvidos em actividades que pretendem trabalhar a sua autonomia. E que vão dando frutos: Francisco é funcionário num arquivo de uma paróquia e Castro trabalha num restaurante da zona. Os restantes elementos vão-se ocupando em fóruns de convívio. E todos tratam da casa, alternadamente – a tabela pendurada na parede da cozinha com a divisão das tarefas não dá lugar a preguiças nem a desentendimentos. E apesar de todos os problemas, esta casa lisboeta parece feliz.

 

horizonte2.jpgReconhecimento.

A Horizonte nasceu há sete anos, na capital, da reunião de um conjunto de vontades. A maior delas talvez tenha sido a generosidade da mulher que é hoje a presidente da associação. Irene Mendes trabalhava, na altura, na Assistência Social da Câmara Municipal de Lisboa. Um dia bateu-lhe à porta um rapaz que sofria de esquizofrenia e que ela encaminhou para o Hospital Miguel Bombarda. Irene recorda que teve conhecimento que o prédio em que o rapaz vivia com a avó entrou em reabilitação urbana quando ele estava no hospital. "O prédio transformou-se e uma pessoa que estava descompensada não podia ir para lá", afirma. Foi então que pediu autorização às chefias para ir ao hospital, com a esperança de poder adiar a alta. Falou com Nuno Afonso Ribeiro, director de uma das unidades do Miguel Bombarda e conseguiu o que queria. "Eles estavam a pensar formar uma segunda associação [para apoio a pessoas com doenças mentais] vinda do Miguel Bombarda. E ele disse-me que contavam com o meu apoio porque eu tinha sido a primeira pessoa da câmara a ir lá", relembra Irene Mendes. A partir daí a sua disponibilidade para a formação da associação foi notada e quando chegou a altura de eleger as pessoas para a direcção, Irene foi a escolhida. "Fui lá parar porque a verdade é que ninguém queria aceitar os cargos, porque a direcção está presente no quotidiano, e cada membro tem funções muito específicas", confidencia a ainda presidente da direcção da associação Horizonte.

Sete anos depois, e apesar de ter passado momentos de solidão na direcção e de há dois anos para cá ter que disponibilizar dinheiro seu por falta de verbas que cubram os gastos diários, Irene Mendes não hesita na hora de fazer um balanço de sete anos à frente da Horizonte: "tem valido a pena". "Temos o afecto, que é muito importante. E temos a boa disposição e o sentido de humor que nos ajudam todos os dias", acrescenta. E adianta que conta com a ajuda preciosa do marido e do filho, que a vão amparando e percebendo as suas ausências. É que Irene continua a trabalhar e é ao final do dia que guarda tempo para a Horizonte. "Nós nascemos só para curtir? Podemos fazer outras coisas e o tempo dá para tudo", defende, com o seu sorriso habitual.

O trabalho diário de Irene, que chega a passar Natais e feriados especiais com os utentes da Horizonte para eles se sentirem menos sozinhos nestas épocas mais difíceis, e da equipa de técnicos que a acompanham, foi recentemente reconhecido pelo Prémio Mulher Activa. Incrédula quando foi seleccionada para as dez finalistas no meio de mulheres que trabalham em instituições mais conhecidas do grande público, mais admirada ficou quando na gala de entrega dos prémios foi a penúltima a ser chamada, apenas antes da vencedora. Ficou no grupo das segundas, recebendo oito mil euros. Doará parte do dinheiro à instituição que dirige, e a outra parte servirá para cobrir o dinheiro que a Horizonte lhe deve.

A distinção junta-se a uma outra recebida da Associação Portuguesa de Farmacêuticos que, todos os anos, nomeia duas associações que se distingam pelo seu trabalho social. A Horizonte foi uma das eleitas.

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Como ajudar

horizonte3.jpgAs mãos nunca são demasiadas quando a palavra de ordem é solidariedade. Uma das formas de ajudar a Associação Horizonte é através de voluntariado, nomeadamente se achar que pode desenvolver com os sete utentes da casa da associação alguma actividade. Depois, por 25 euros anuais e 10 euros de jóia de inscrição, pode tornar-se sócio da Horizonte, adquirindo o direito de participar na vida activa da associação. Pode também ceder donativos para a Horizonte através da conta donativo 0082006719/430, da Caixa Geral de Depósitos, balcão Estados Unidos da América. As verbas recolhidas revertem a favor do novo espaço (já há projecto) para acolher os utentes da Horizonte, já que a casa onde estão actualmente não tem as mínimas condições de segurança - por causa disso, a Segurança Social tem feito várias ameaças de fechar a residência, caso não haja uma solução. Os donativos podem ser deduzidos no IRS: para isso basta enviar um e-mail à associação de forma a eles reencaminharem o recibo.

O importante é "fazer acontecer o milagre todos os dias", afirma Irene, referindo-se aos elementos de uma outra associação, a Voz do Operário, que todas as semanas disponibiliza o seu tempo, a sua carrinha e um motorista para ir buscar alimentos ao Banco Alimentar, já que a Horizonte não tem qualquer carro. Fazem largos quilómetros de boa vontade só para ajudar uma associação que ainda tem muitas carências, mas que sobrevive graças à generosidade de muitos.

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Associação Horizonte - Centro de Reabilitação Social

Rua Eduardo Costa, nº 4

1170-117 Lisboa

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[Fotos: Ana Jesus Ribeiro]

[Na segunda, Irene Mendes; Na terceira, os sete utentes da Horizonte]

 
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