|
Escrito por Eva Pereira
|
|
27-Ago-2008 |
Um café ao final da noite, uma tarte de mirtilo que fica esquecida para o fim sem razão aparente, uma caixa que guarda chaves de uma vida (de uma daquelas muitas que vivemos) à espera que o passado regresse ou na esperança de que um dia possamos e queiramos regressar a ele. E Jude Law, Norah Jones (a cantora que se transforma em actriz), Natalie Portman, David Strathairn, Rachel Weisz e o olhar quase mágico de Wong Kar-Wai, que transforma (quase) não estórias em obras-primas. Foi assim com 2046 e com In the mood for love. Entra-se na sala de cinema a pensar que será assim com My Blueberry Nights.
O filme conta a estória de Elizabeth, uma jovem que viaja pela América à procura de respostas a questões que a atormentam, nomeadamente amorosas. Pelo caminho, vai cruzar-se com pessoas invulgares, que a vão ajudar a encontrar o rumo certo nesta jornada de auto-descoberta. No final, Elizabeth está pronta a deixar a chave do passado precisamente lá e a seguir o seu coração. Volta ao café da tarte de mirtilo para encontrar … (Jude Law) e perceber que é ao seu lado que o presente tem que ser escrito. O filme acaba com um plano apertado e invulgar dos dois a beijarem-se. Será talvez esta a cena mais marcante da película que, à semelhança de outros filmes de Kar-Wai, privilegia a música (da própria Norah Jones e de Cat Power, entre outros), as cores surreais e os slow motions.
O realizador recorre a alguns dos seus elementos preferidos, como os comboios, para introduzir a melancolia e a reflexão, muito características suas. É o seu primeiro filme filmado em território americano (Kar-Wai é japonês) e em inglês. É um filme indispensável para quem segue e aprecia o bom cinema (também para quem aprecia o modo de narrativa japonês), mas acaba por saber a pouco no final. Talvez porque a fasquia estava muito alta, My Blueberry Nights não ficará certamente cravado na estória do realizador como a sua obra-prima. Falta-lhe talvez algum dramatismo que as bandas sonoras de In the mood for love e 2046, bem como os próprios actores e cenários japoneses lhes conferiram. É caso para dizer que esperamos que Kar-Wai regresse em breve mas na sua língua natal.
.
[Fotos: DR]
|